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O segredo sujo da vida eterna.

A nossa cultura, como todas as culturas, dedicou-se à busca pela vida eterna. E, como todas as culturas, falhámos. Mas não nos demos por vencidos. Como a morte não se vergou nem à higiene, nem à medicina, dedicámos enormes esforços a combater a própria ideia da morte. Ela foi empurrada para longe, com cosméticas, e medicamentos, e em último recurso lares onde se morre lentamente. Foi empurrada para sítios onde não nos incomode, onde não nos recorde da sua dolorosa existência. E isso foi um erro colossal.

A necessidade de limites.

Antes de falar da morte, temos que falar de limites.

Imagina que te dão uma folha branca, uma caneta e dizem-te: “desenha o que te apetecer” vai ser difícil não é? Vais ter uns momentos a pensar, a deixar que a inspiração venha até ti. Mas se te disserem “desenha uma casa” é mais fácil, mas rápido. E se te disserem “desenha uma casa com uma porta, duas janelas e uma chaminé” mais simples ainda se tornam as coisas. Neste caso, os limites facilitam-nos a vida.

Olhando para limites de uma outra forma, podemos imaginar um pintainho dentro de um ovo. A casca do ovo é um limite que o separa do mundo lá fora. Que o mantém contido, mas também em segurança. Se abrirmos o ovo antes de tempo, o pintainho morre. Mas, se ele não conseguir quebrar a casca na altura devida, também é a morte que o espera. Aqui o limte é algo mais sério. Não só responsável pela sobrevivência, mas também pela morte se não for ultrapassado.

Os limites dão-nos estabilidade, segurança. Tornam a vida suficientemente simples para conseguirmos lidar com ela. A maior parte deles, cumprida a sua função deixam de dar estrutura e passam a sufocar-nos. Esses devem ser ultrapassados. Mas isto tem que acontecer no momento próprio, quando temos a maturidade, e força necessária para lidar com um mundo em que eles estão ausentes. Se forem retirados demasiado cedo, criam apenas desorientação, confusão.

Olhando para a nossa vida, há dois limites inescapáveis: o primeiro é o nascimento. É tão importante que o celebramos todos os anos: convidamos os amigos, temos um bolo e velas, fazemos um festa. Recordamo-nos que passou mais um ano desde esse momento especial em que viemos ao mundo.

O segundo limite é a nossa morte. Mas esse foi tornado tabu, e é suposto vivermos como se não existisse. Não se fala da morte à hora de almoço. Conversas sobre o fim da nossa própria vida são consideradas tétricas, e rapidamente somos enxotados para um outro assunto, mais leve, mais alegre. Toda a nossa cultura está estruturada para nos afastar da ideia da morte. Para fingir que esse limite não existe. E de todos os limites, esse é aquele que não foi feito para ser ultrapassado. A sua presença é fundamental para que possamos viver a vida.

Um mundo dual

No nosso mundo, as coisas existem enquanto pares de opostos. Frio e calor. Perto e Longe. Preto e Branco. Vida e Morte. Quando lidamos com uma ponta do espectro, lidamos também com a possibilidade do seu oposto. E como tal, é impossível livrarmo-nos de apenas um dos polos da coisa: não há um íman só com polo norte.

Para além disso, ao lidar-mos com o polo desagradável de uma coisa, damos mais valor ao outro polo. Quando está demasiado calor, só pensamos em como temos saudade do frio, e vice-versa. Quando alguém que amamos está demasiado longe, só pensamos em estar próximos. Ter que lidar com um dos extremos leva-nos a valorizar muito mais o outro.

Sabemos isto a um nível intuitivo. No entanto, por algum motivo achamos que a forma certa de dar valor à vida é ignorando a existência da morte. Retirando-a da equação. Fazendo os possíveis para que ela desapareça.

Ao fazer isto, só desvalorizamos a vida. Por falta de contraste, ela torna-se algo sem valor. Passa a ser pano de fundo, e não algo central na nossa vida. Um bocadinho como quem tem ar condicionado deixa de dar valor e desliga-se da temperatura. Afinal, sabe e confia que ela vai estar sempre lá, confortável, imóvel. Mas uma visão da vida assim, como se fosse eterna rouba-a do seu valor.

Uma outra forma de olhar para isto é ver a criança mimada. Tem sessenta brinquedos no quarto, e não liga a nenhum deles. Não lhes dá valor. Mas todos sabemos, que basta irmos ao quarto dela e tirar um, que ela de repente esperneia e grita e já não o quer largar. Nós com a vida fazemos muitas vezes o mesmo. Por nos esquecermos da morte ficamos como a criança, mas sentados no chão, rodeados dos anos que passam, sem lhes ligar nenhuma. É preciso que venha alguém e nos lembre que eles se vão embora para lhes darmos o valor devido.

A necessidade da morte.

Porque, apesar de todos os nossos jogos mentais, a morte continua lá à nossa espera. À minha espera. À tua espera.

Não fujas. Não deixes que o eterno refrão da cultura te seduza. A tua morte está à tua espera. E vai-te agarrar.

E vão-nos dando pistas recordatórias de que a nossa morte nos acompanha sempre.

A mais clara é a morte de alguém que nos é querido. De repente a vida ganha outro sabor, ganha outra importância. Sim, o luto e o pesar vêm, e em certos momentos podem ser sufocantes. Mas ao mesmo tempo, eles obrigam-nos a olhar para a nossa vida. Obrigam-nos a deixar cair as máscaras, a calar as mentiras que dizemos a nós mesmos, e a ver as coisas como são. Porque de repente, sabemos que só temos uma vida. E que deixar para amanhã, fazer aquele favorzinho que vai contra quem somos, deixar a nossa vontade para trás, o preço de tudo isso de repente fica demasiado grande para ser pago. Enquanto o luto e o pesar nos atravessam, nos abrem à vida, somos obrigados a deixar cair as nossas máscaras.

Esta consciência da morte é como uma montanha a que subimos. Que nos permite elevar-nos acima do nosso dia-a-dia, da pequenez em que por vezes nos deixamos enredar e nos permite olhar realmente para a vida.

Além disso, a morte dá-nos força. Força para dizer não quando ele é necessário e força para dizer sim, mesmo quando assusta. Ela, paradoxalmente, obriga-nos a levar a vida muito mais a sério – conscientes que os dias que passamos cá têm um prazo. Mas também com muito mais leveza: sabemos que não saímos vivos dela, e que na face dela, nada do que fazemos é assim tão importante.

Convite a visitar a tua morte.

Ganhar consciência da morte não tem que ser assim dramático, não é necessária uma morte na família, ou uma experiência de quase morte na nossa vida. Os romanos faziam-nos com uma inscrição que colocavam em todo o lado: Memento Mori, que significa Lembra-te da tua morte.

O convite que te faço é para o fazeres com base numa meditação. Basta leres, e imaginares, com tanto detalhe quanto puderes.

À distância ouves um sino a tocar na igreja. Reconheces o som, está a chamar para um funeral.

Vais nessa direção. Aproximaste. À porta da igreja, começas a reconhecer caras. Seja quem for que morreu é-te próximo, as caras são-te todas familiares.

Entras na igreja, e avanças pelo corredor central. O caixão está lá à frente, aberto, mas a esta distância não consegues ver o corpo. Nas filas da frente vês também pessoas que te são muito próximas, família e amigos. Estás preocupado. Mas quem será que está no caixão.

Aproximas-te mais, e ao olhar lá para dentro, vês a tua própria cara. És tu, ali. O teu corpo, morto.

E três pessoas do banco da frente avançam. Repares que uma das pessoas é teu familiar, outra do teu círculo de amigos, e a terceira da tua comunidade, ou do teu trabalho. Uma de cada vez, elas falam sobre ti.

Exercício:

a) Escreve o que achas que cada um deles diz sobre ti

Noutro dia, volta a fazer o exercício, mas numa das variações

b) Escreve o que gostavas que cada um deles dissesse sobre ti

c) Imagina que a tua morte está bem distante no futuro. A tua cara no caixão está enrugada, passaram-se muitos e bons anos. O que é que dizem sobre ti agora, passado este tempo todo?

d) Compara as diferenças e similaridades entre as várias versões, e vê, o que é que isso te diz sobre a forma como estás a levar a tua vida.

Meditação nos sentidos

Nesta série de posts, vamos falar de uma série de rotinas ancestrais que nos levam de regresso à Natureza. Nasceram de uma busca da resposta à pergunta “como é que certas culturas mantêm viva a conexão à natureza de uma geração para a outra?”. Se quiseres saber mais sobre este tópico, e ver todos os posts da série, clica aqui

As nossas histórias podem impedir-nos de estar presentes.

A nossa experiência da realidade, a nossa capacidade de estar presente é filtrada pelas nossas histórias.

Por vezes, a beleza puxa-nos até ao presente — um por do sol, o topo de uma montanha, alguém que amamos — e por momentos experienciamos, mas isto nem sempre acontece.

O objetivo da rotina de hoje é criar esta capacidade de presença de forma consciente. Criar uma ponte que nos leve mais para junto das coisas.

Se fores até ao teu poiso, mas o teu foco forem apenas os teus pensamentos, então a conexão que vais criar vai ser principalmente com aquilo que pensas, e não com o que está à tua volta

Os sentidos são uma ponte para o real

Então, como usar os sentidos para ficar presente? É isso que vais aprender agora. Abaixo seguem as instruções para a meditação dos sentidos.

Vamos um sentido de cada vez, experimentar estar presente nele. Cada sentido tem um animal padroeiro, que nos ajuda a perceber o tipo de atitude adequado.

Olhos de coruja

  1. Começa por fitar o horizonte.
  2. Depois, estica os teus braços à tua frente. Deixa que eles abram para o lado, e que a tua visão estique na direção da periferia. Sem mexer os olhos, acompanha o movimento das mãos — queres aperceber-te de até onde consegues realmente ver.
  3. Depois, volta a trazer os braços ao centro e move um deles para cima e o outro para baixo. Queres aperceber-te de quanto consegues ver do chão e do céu.
  4. Deixa os teus braços relaxar, e mantém-te com a visão descontraída. Permite que tudo o que está a acontecer entre na tua percepção, sem estares com o foco em nenhum ponto em especial
  5. Com alguma prática vais conseguir ficar logo presente na tua visão periférica sem usar os braços, mas nas primeiras vezes eles são uma ajuda grande.

Ouvidos de veado

  1. Fecha os olhos, e foca-te na audição.
  2. Começa por levar o foco para a área à tua frente. Qual o som mais suave que consegues ouvir ai? E o mais alto?
  3. Repete para a tua esquerda, as tuas costas e a tua direita.
  4. Depois, deixa que a tua percepção de som ande à volta, nas quatro direções, procurando chegar a um ponto em que estás presente em toda a tua volta ao mesmo tempo.
  5. Em seguida, mantendo este foco na audição, abre os olhos. Volta aos olhos de coruja, e percebe se consegues manter a audição e visão completamente ativos ao mesmo tempo.

Nariz de cão

  1. Fecha os olhos, deixa que os sons saiam do centro da tua atenção e foca-te no teu nariz.
  2. Experimenta a fazer várias inspirações curtas mas fortes, para ativares a capacidade de olfacto.
  3. Depois, manda o ar todo fora, e faz apenas uma inspiração bem longa e profunda.
  4. Respira um bocadinho pela boca e mastiga o ar. Há algum sabor no ar?
  5. Qual das duas funciona melhor? Consegues manter o foco nos cheiros que descobriste com a respiração normal?
  6. Com este foco na respiração e nos cheiros que chegam até ti, volta aos olhos de coruja e aos ouvidos de veado. Consegues estar presente neste três sentidos ao mesmo tempo

Mão de guaxinin

  1. Vais voltar a fechar os olhos, mas agora vais levar a atenção até ao teu corpo.
  2. Sente as tuas mãos. Que texturas é que elas sentem? Consegues sentir o ar em redor delas?
  3. Vai até ao corpo, e sente a roupa. A forma como as meias e os elásticos te apertam. As zonas em que a roupa roça em ti e a forma como se move com a tua respiração
  4. Nota também onde a tua pele está em contacto com o ar. Consegues sentir o vento a soprar? Como está a temperatura? Consegues notar a humidade?
  5. E agora vai para dentro. Como está o teu interior? A tua postura? Tens tensão nalgum músculo? Viaja pelo corpo, começando pelos pés, e nota tudo o que se passa dentro de ti.
  6. Deixa que a tua consciência se espalhe pelo corpo, desde os ossos até à pele, consciente de tudo o que está a acontecer com o teu corpo
  7. Depois, regressa aos olhos, ouvidos e nariz. Consegues estar presente no teu mundo interno e externo? Consegues sentir a forma como o teu corpo encaixa parte do ambiente onde estás, tal como as árvores e os pássaros?

Podemos estar tanto tempo quanto o nosso corpo pedir nos sentidos

O que é que notaste que acontece aos teus pensamentos quando fazes este exercício?

Este exercício da meditação nos sentidos deve ser feito todos os dias, quando vais para o teu poiso. Ajudar ter um cronómetro, e começar por cinco minutos, e daí dez, quinze e quanto quiseres.

Se quiseres ter uma prática mais alargada, podes ter gatilhos — isto é, certos acontecimentos que te recordem de ir visitar os sentidos.

Quando passa um avião, quando passas por uma porta, quando sais de casa, quando o telefone vibra. Deve ser um acontecimento que aconteça com alguma frequência e que te lembre de vir até ao mundo real, de vir até ao que estás a viver.

Durante esta semana, experimenta fazer esta meditação nos sentidos quando fores ao teu poiso. De que maneira é que isso muda a tua experiência lá?

Para a semana vamos falar de como podemos usar as nossas histórias como aliadas para aprofundar a nossa experiência de conexão. Até lá!

Escolher um caminho espiritual

O João quer subir a montanha. Lá em cima, o pico está coberto de nuvens, e ele não sabe se existe mesmo, se é tão bonito como dizem. Mas já ouviu falar de malta que chegou lá acima. E dizem que não há nada que se compare.

Chegou à base da montanha e, de repente, é o caos. Há dezenas, talvez centenas de guias, cada um a apregoar o seu caminho. Uns dizem que o seu é o mais rápido. Outros que é o mais fácil. Alguns dizem que os outros guias estão todos errados, e que só o caminho deles é que funciona.

E também há alguns turistas. O João decide dirigir-se a um para ver se tem algumas luzes. Escolhe uma senhora, de meia idade, cabelo escuro. E pergunta-lhe como está a correr a subida. E ela fala de quão maravilho está a ser. Ontem esteve dois dias com o guia de chapéu de penas. Antes disso foi uma semana com outro guia que veste um robe. E ela continua a falar de como andou para cá e para lá, de como tudo foi maravilhoso e transformador. E aí, o João pergunta-lhe, afinal quão alto é que ela chegou? E ela fica corada e vai embora.

Então, o João decide ir falar com os guias. Há uns mais barulhentos. Falam das maravilhas que há no topo da montanha. Usam cores garridas e estão cheios de energia. Mas, desilusão das desilusões! Ao falar com eles, o João apercebe-se que eles na verdade também não sabem o caminho até ao topo. Sim, já andaram qualquer coisa. Uns seguiram mapas velhos, outros as palavras de alguém que subiu, mas apesar do seu entusiasmo, nunca foram até lá a cima. Mas garantem-lhe que vale muito a pena, e que se for com eles, sem dúvida vai chegar ao topo.

O João decide abandonar, e vai-se sentar, cansado no restaurante da base. É aí que encontra um outro grupo. Roupas mais simples (pelo menos alguns deles), uma certa tranquilidade. E o João expõe-lhes o seu dilema. Eles ouvem-no com paciência. Perguntam-lhe o que é que ele quer? As vistas mais bonitas, ou o caminho mais rápido? Será que gosta mais de um caminho desafiante? Que preparação é que já fez? Será que subir a montanha é mesmo o que ele quer?

E, depois de o perceberem (e de o João perceber melhor o que quer), olham uns para os outros e um deles levanta-se.

— Anda. — Diz ele. — Vou-te ensinar a escalar.

E ele ensina. Dá-lhe as técnicas. E mostra-lhe o caminho e vai com ele até ao sítio onde as nuvens começam. E nessa altura, o João já está confiante. Já caiu e se levantou vezes suficientes. Sabe escalar e como encontrar o caminho certo. E o guia diz-lhe:

— Daqui para a frente, o caminho tens que ser tu a fazer sozinho. Mas, toma, este é o mun número. Se precisares de alguma coisa, liga.

— E vou chegar até ao cimo? — Pergunta o João

O guia ri-se, e diz

— Isso não sei, mas enquanto tiveres vontade, vai haver montanha para escalares.


Uma montanha para subir

Há muitos caminhos espirituais. Muitos. Mesmo muitos! E, para grande alegria da malta com capacidade de se decidir por um e grande confusão de todos os outros, muitos deles até funcionam.

É uma espécie de armadilha, o excesso de escolha. Por um lado é bom, há variedade, que de certeza que lá pelo meio encontras o caminho que é perfeito para ti.

Mas por outro lado, é fácil cair no dilema do príncipe encantado. Achamos que o próximo é que vai ser bom, e não estamos tempo suficiente comprometidos com aquele para as coisas realmente funcionarem.

Porque essa é uma questão dos caminhos espirituais. Eles pedem compromisso, foco, horas de trabalho. Eles vão à profundidade, a partes de nós que estão abaixo da consciência e que se movem lentamente como os continentes.

E sim, há um momento para ir experimentar. Entrar num caminho espiritual é um bocadinho como entrar num relacionamento. Se nunca experimentamos mais nada, fica difícil saber se o que temos é bom ou não. Faltam-nos pontos de referência. Há uma capacidade de discernimento que vem dessa experiência, desse experimentar desinteressado, só para ver como é.

Mas depois, depois dessa exploração (que é bem gira) há a outra parte. Do compromisso, da entrega, de fazer um caminho juntos. Que romântico não é?

Então, já que estamos a comparar o caminho espiritual com uma relação, vamos lá olhar para bandeiras vermelhas, que nos avisam logo que é para abandonar.

Bandeiras vermelhas

  • Os defensores do caminho estão convencidos que tens que largar uma parte de ti para realmente cumprires o teu potencial

 Não estamos a falar de um mau hábito, ou daquele trauma de infância que ainda hoje te assombra. Não, estamos a falar de coisas maiores. Costumo chamar a isto a teoria da amputação humana: que se cortares um bocado de quem és aí é que vais realmente ser tudo o que devias ser.

  • Para o cristianismo esta parte era o Corpo, que estava cheio de pecado e a Mente, porque os padres eram quem pensava.
  • Para o racionalismo eram as Emoções, que elas só atrapalham e o Espírito, que se nunca ninguém viu, não deve interessar.
  • Para a espiritualidade Kumbya que há por aí a potes, é a Mente, porque ela mente-nos, e basta sentir para chegar à verdade da vida.

Acho que olhando assim para elas umas ao lado das outras fica claro porque é sempre uma ideia parva. Somos seres humanos, temos espírito, mente, emoções e corpo, tentar deixar uma de lado é meio caminho andado para dar asneira.

O não pensar, que é o que está mais na moda hoje em dia é particularmente grave. As tuas escolhas a nível espiritual tanto te podem levar a sítios interessantes, como para um buraco. Cabe-te só a ti a responsabilidade pelas escolhas que fazes, e para isso é importante usar o teu sentido crítico

  • A pessoa que a prega está toda descompensada.

Já na bíblia dizia, que pelos frutos se conhece a árvore. Se o caminho for bom, vai fazer bem. Quando em vez disso a pessoa fica cada vez mais destabilizada, quando em vez de crescer regride, então alguma coisa está mal.

Por vezes nem é o caminho em si, é só a forma como aquela pessoa o escolheu percorrer. Mas, seja como for, fica claro que por ali não é o caminho a seguir. É claro que a espiritualidade vai mexer com os teus valores, com o tipo de pessoas com quem te dás. Mas esse caminho vai-te levar a uma maior paz interna, a uma maior aceitação do outro.

  • Pede que te isoles

Se não tiveres amigos para te dizer “Laura, mas que raio andas a fazer com a tua vida?” fica mais fácil levar-te para um buraco imenso. Fica mais fácil que te convenças que sim, essa barbaridade que estás a fazer é normal, porque a malta toda com quem te dás pertence ao culto.

E, mais uma vez, bom senso. Uma coisa é um retiro porque faz bem fazer um detox da nossa sociedade. Outra coisa totalmente diferente é tentarem convencer-te que todas as tuas anteriores relações são tóxicas, e que agora que estás no caminho do bem tens que a deixar para trás.

  • É a dona absoluta da verdade

Esta atitude é da religião. E das pouco tolerantes. Na espiritualidade não é suposto acontecer. A malta que leva o trabalho a sério sabe que o que seguem é apenas um caminho, e que há outros caminhos que fazem mais sentido para outras pessoas.

É tão absurdo como eu dizer que a única forma certa de fazer bacalhau-à-brás é como a minha avó me ensinou. Eu posso tê-la como preferida, mas isso não torna as outras formas menos válidas.

  • Está atrás do teu dinheiro.

Quem vive da espiritualidade — e hoje em dia é coisa que dá para fazer — tem que comer comida e pagar contas como os outros. Já para não falar que pôr um preço nos ensinamentos leva a que sejam levados mais a sério pela maior parte da malta.

Mas se a tua escola está a um passo de ser um esquema em pirâmide. Se cada curso que faças para te levar mais perto do altíssimo te leva também mais perto da falência. Se o teu mestre espiritual tem necessidade do seu terceiro Porshe e pede o teu humilde donativo. Então talvez o foco da escola já não seja a espiritualidade, por muito que tenha começado assim, e que até tenha ensinamentos válidos.

Sabendo o que evitar já estás mais bem preparada do que a maioria das pessoas. Parabéns! Para a semana vamos falar do que procurar, para que te possas decidir para onde vais.

Sobre o Amor

Escuro. Frio lá fora. Uma gruta escondida, e uma enorme ursa parda. Enorme também porque está grávida. É inverno, e no culminar da estação fria, ela acorda por momentos do seu torpor e dá à luz. A cria nasce, pequena e sem pelo

Estamos no pico do inverno. O ano passou à pouco, há neve lá fora e a noite domina o dia. Os ribeiros estão gelados, as plantas adormecidas, toda a comida escondida debaixo de um manto de neve.

A pequena trepa pela mãe acima, até um mamilo. Aninha-se e mama. Não vê, não ouve. O mundo dela é apenas o calor da mãe, a sensação do bater do seu coração, e o leite que a nutre. O mundo da mãe agora é mais brilhante. Por entre a escuridão da noite, há uma luzinha. Sente a cria aninhada junto ao seu coração, e os seus sonhos ganham novos tons de doçura.

Passam o tempo assim, aninhadas uma na outra, num mundo onde não há mais nada, mais ninguém. A cria cresce, ganha pelo, abrem-se os ouvidos e os olhos. A mãe emagrece. As suas reservas, a vida que guardou tem que ser suficiente para alimentar também a vida que gerou.

E com o abrir das flores, entre Abril e Maio, elas saem da toca.

Para a mãe é o regressar a um mundo conhecido, mas com um olhar diferente. Tem agora algo de infinitamente precioso, uma parte de si a quem proteger e ensinar como viver nesse mundo. Para a cria é um mundo novo. Do útero passou à toca e ao peito que a nutria. Da toca nasce para o mundo e ao amparo da mãe natureza.

A sua própria mãe agora está diferente. Já não passa os dias parada, agarrada a ela. Precisa que a cria aprenda como estar no mundo. Ao mesmo tempo que a empurra para brincar e explorar, chama-a ciosa, ao menor som, ao menor sinal de que algo se passa. Há uma leve tensão que aflora e se desvanece, seguindo os ritmos do sítio onde estão.

E um dia, a cria tem um encontro diferente dos outros. Há uma pegada grande no chão. Ela aproxima-se e cheira, curiosa, soltando alguns latidos de excitação. A mãe, que se tinha afastado um pouco, ouve-a. Sabe que ela se distrai quando a curiosidade fala mais alto e decide voltar para ao pé dela.

E, com o nariz bem junto da terra, ela não ouve o som suave de patas a tocar o chão. Não vê o vulto que se aproxima. Que observa esta pequena cria, sozinha. A fome do puma fala mais alto que a cautela e ele sai da penumbra das árvores. Carrega em direção a ela.

Do outro lado do caminho, a mãe acaba de atravessar um arbusto, e vê. A cria distraída no meio do caminho, e o enorme leão da montanha a correr na direção dela. O coração acelera, e os músculos explodem em força. Ruge e quase voa em direção à cria. Mas está longe. Mais longe que o puma.

A cria assusta-se com o rugir da mãe e mexe-se, foge. O puma não quer perder a refeição. O inverno também foi rigoroso para ele. Chega ao pé da cria e tenta abocanha-la, mas a pequena consegue fugir!

A mãe chega. O puma hesita, a mãe não. Atira o corpo contra ele, sem querer saber dos dentes nem das garras afiadas que ele tem. Põem-se de pé, e dá dá-lhe uma patada. Com as garras apanha-lhe a cara e abre quatro lanhos. O puma foge, a mãe volta a rugir, mas não o persegue. Vira-se para a cria, lambe-a. A pequena treme, aninha-se. Passado algum tempo, ambas se acalmam.


O amor tem muitas expressões. Tem cores que vão para além do rosa e texturas que vão para além do algodão doce. Por vezes é duro, negro, tem garras e dentes. Por vezes passa por escolher o que é realmente importante para nós e não deixar que nada nem ninguém nos tire isso.

E sim, um compromisso desse tamanho assusta. Mas também nos dá forças.

Quando se diz que o planeta precisa de mais amor, este é um dos amores que se fala. Quando se pede para amar a terra, não é a ideia teórica dela, azul a flutuar no espaço, distante, abstrata. Pede-se o mesmo tipo de amor que o ser humano sempre teve. O amor pelo pequeno cantinho onde vives. Por aquilo que conheces, em que tocas e que te toca. Que é parte de ti. Se deixares, esse amor vai pedir as tuas garras e os teus dentes. Vai pedir que o mantenhas seguro e feliz. Vai dar-te a força que precisas para o proteger quando alguém o quiser levar.

Não dá para salvar o planeta, a terra. É demasiado grande. Demasiado abstrato, demasiado desesperante. Mas podes cuidar do pedacinho onde estás. E, se vires bem as coisas, a terra é toda feita de pedacinhos.

Poiso

Nesta série de posts, vamos falar de uma série de rotinas ancestrais que nos levam de regresso à Natureza. Nasceram de uma busca da resposta à pergunta “como é que certas culturas mantêm viva a conexão à natureza de uma geração para a outra?”. Se quiseres saber mais sobre este tópico, e ver todos os posts da série, clica aqui

No caminho para a conexão à Natureza, poisar é o primeiro passo. 

Tal como um pássaro, que encontra um poleiro alto de onde olhar o mundo. Ou um gato que pára à saída da porta antes de sair de casa.

Poisar é parar, escolher um sítio e tomar atenção. Deixar que o outro lado se mostre e estar presente para o ver.

Para criarmos conexão, é fundamental estarmos presentes. Um pouco como uma criança que faz o seu primeiro amigo, ter um sítio onde poisar vai-te dar a base e a segurança para te conseguires ligar ao mundo. 

Um poiso (no inglês original chama-se Sit Spot) é um local onde vais todos os dias. Que vais conhecer intimamente. Que vai ser a tua âncora para te ligares ao mundo natural.

Poisar é simplesmente escolher um sítio, e passar a conhece-lo intimamente

É, de todas as rotinas de conexão, a base. Aparece em várias culturas ancestrais e junto com a história do dia, vai ser a base da tua jornada de conexão. A folha sobre a qual vais escrever a história do teu regresso ao mundo. De todas as práticas que tive, esta foi a mais importante, e a que mais me ensinou. 

Criar esta rotina é simples, bastam dois passos:

  1. Escolhe um sítio
  2. Regressa a ele todos os dias. 

O segundo passo é simples, o que não significa que seja fácil. Ter essa rotina de ir poisar, parar, todos os dias. Tirar um momento para ti e para a tua conexão ao mundo vai ser fundamental na tua jornada, e nada substitui isso. 

O fundamental é escolher um sítio onde seja fácil regressar todos os dias

Em relação a escolher o sítio, eis o que deves procurar:

  1. Proximidade – Se não for perto, não serve de nada. Se for longe, vais ter todas as desculpas para não ires. Há quem lide bem com um sítio 5 minutos a pé. Há que consiga fazer os 15. Eu tenho o meu no meu quintal, bem perto da minha porta de entrada, depois de ter tentado e usado outros mais longe, mas aos quais inevitavelmente deixava de ir. 
  2. Segurança – Tem que ser um local onde te sintas seguro. Onde possas estar realmente presente, sem medos – seja isso o medo de alguém que possa aparecer, ou da árvore em perigo de cair, ou dos cães vadios que por lá andam. 
  3. Natural – Quanto mais natural o sítio, melhor. Mas a Natureza está inesperadamente perto! Pode ser um par de árvores num parque, Ou pode ser um lago com vida luxuriante. Tem que ser na rua, e de preferência com árvores. 
  4. Diverso – Quantos mais habitats tiver, melhor. As zonas de fronteira são sempre as mais ricas. Onde a floresta se encontra com o rio, que ao lado em um campo agrícola vai ser um sítio com mais vida e mais por onde explorar do que uma zona monótona.

Com estas quatro direções, já deves ter uma ideia de qual o sítio onde faz sentido criar o teu poiso

Deixa que o sítio fale contigo, que a conversa tenha dois sentidos

Depois de identificares a zona, há um exercício que te vai ajudar a encontrar o sítio, chama-se caminhar intuitivo. É muito simples:

  • Para, relaxa e fecha os olhos. Vai até à tua respiração, e deixa-te ouvir os sons à tua volta, deixa-te sentir o que está debaixo dos teus pés. 
  • Envia a tua intenção ao local – queres encontrar o sítio onde te podes sentar para o conhecer. 
  • Acolhe a resposta do local, e deixa que haja espaço em ti para a possibilidade deste sítio te estar a convidar para ir ter com ele. 
  • Deixa-te vaguear, sem medo de sentar, sem medo de ir e explorar vários sítios, até encontrares um em que te sintas bem. 
  • Quando escolheres o teu sítio, senta-te e fica aí, a observar

Lembro-me da primeira vez que fiz isto. Não tinha uma zona definida onde queria estar, e o caminhar intuitivo levou-me a muitos sítios diferentes. A um local com pistas de javali. A um sítio onde vi dois corvos lutar. A recantos de carvalhos escondidos. Para mim encontrar o meu poiso da primeira vez demorou vários dias, e em todos eles descobria algo novo. Ficava sentado alguns dias, até sentir que era a altura de mudar. Até que cheguei ao sítio onde decidi querer ficar, num lago perdido, encravado entre eucaliptos, um campo agrícola e uma zona de pinhal. 

Da segunda foi mais rápido. Tinha uma zona mais pequena onde queria ficar, junto a um rio, e demorei algum tempo a caminhar junto dele até descobrir a prainha que me acompanhou durante muito tempo. 

E da terceira vez que o fiz, foi a mais rápida. Sabia bem o que queria – ficar bem perto de casa. Andei um pouco até chegar ao sítio que me pareceu o correto, e lá fiquei. 

O que importa neste exercício é deixar-te andar sem expetativas. Vais ver que a zona que escolheste tem muito mais para te mostrar do que imaginas. 

Só tens que estar presente

Depois de escolher o sítio vem a pergunta, então e o que é suposto eu fazer? A primeira coisa é ir com a atitude certa, bastando para isso curiosidade. Eu gosto de levar uma caneca de cacau, e ir olhando para o que se passa nesse dia enquanto o bebo. E isto é quanto basta. É como ir ter com um amigo. Não têm que ir fazer nada, basta estarem juntos, e talvez partilhas as vossas novidades um com o outro.

Experimenta fazer isso uma esta semana e perceber como te sentes. 

Para a semana que vem, vou-te ensinar uma forma de te tornares ainda mais presente no local.

Práticas Espirituais

A Laura veio do ginásio. Está contente: tem um novo record pessoal nos agachamentos: já consegue agachar o seu próprio peso!  Bem se lembra no início, o tempo que passou com o PT a corrigir a forma, só com um cabo de vassoura porque não tinha força para mais.

Hoje, já não lhe doem os joelhos e também consegue pegar na filhota ao colo com muito mais facilidade. É verdade que nunca teve que se agachar com 60 kg nos ombros fora do ginásio, mas ser capaz de o fazer trouxe-lhe imensas vantagens noutras áreas da vida.

Chegando a casa, está na altura da segunda parte da rotina de auto-cuidado dela: vai sentar-se a meditar durante 30 minutos. E é aí que lhe bate a revelação: E se a meditação for como os agachamentos, e o que ela está a aprender na verdade vai muito para além de ser capaz de ter a mente parada?

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Aprendizagens obliquas

Há práticas que aparecem uma e outra vez na espiritualidade. Com nomes e roupagens mais ou menos diferentes, acontece frequentemente que o mesmo tipo de exercício aparecem em tradições completamente distintas. Mas antes de entrarmos neles, temos de falar de aprendizagens obliquas.

É delas que fala a história de abertura. Às vezes e, no caso da espiritualidade, muitas vezes, aquilo que achamos que estamos a fazer e o que está a ser trabalhado na realidade são duas coisas distintas. Quando a minha avó insistia que eu arrumasse o quarto, o objetivo dela não era que eu fosse um especialista em arrumação de quartos. Ela estava a usar essa tarefa como uma ferramenta para me ensinar sobre brio, arrumação e uma certa forma de estar na vida.

Com as práticas espirituais passa-se o mesmo. O que achamos que está a ser trabalhado nem sempre condiz com os resultados que obtemos. E tem que ser assim.

Por dois motivos — primeiro há coisas que são impossíveis de desenvolver diretamente. A Laura sabe que o quer ficar mais forte. Para isso é indiferente se levanta alteres, usa elásticos, ou o próprio peso do corpo, ela vai ter sempre que usar uma ferramenta para ter resultados.

E o segundo motivo prende-se com a forma como o ego (e aqui uso a palavra no sentido da parte de nós que está encarregada da nossa sobrevivência) funciona. Por norma, somos resistentes à mudança. A forma como funcionamos hoje claramente resulta (estamos vivos, não é?) e qualquer alteração de fundo pode ser uma ameaça a essa sobrevivência. Por isso, o ego vai-se proteger e criar distrações e diversões quando vê mudanças grandes a caminho. E o trabalho espiritual, quando funciona, tráz inevitavelmente mudanças.

E para isso, usam-se práticas que distraem o ego, enquanto o trabalho importante é feito. Um bocadinho como se conta uma história, ou se finge que a colher é um avião para a criança comer.

Práticas da espiritualidade

Introdução feita, vamos então falar das práticas:

Meditação: Isto é, alinhamento da atenção com a vontade. A meditação não é só estar parado a olhar para os pensamentos. Isso é um tipo de meditação. Podemos meditar com uma absorção total nos sentidos. Podemos manter o foco em símbolos sagrados, ou de muitas outras formas. O que elas têm em comum é que colocamos a atenção ao serviço da vontade, em vez de estar dispersa pelos mil estímulos que há em seu redor.

Trabalho simbólico: Se eu disser “cadeira” consegues criar uma imagem na tua mente, certo? Isso só acontece porque sabes o que a palavra significa. Na espiritualidade, as coisas funcionam um bocadinho ao contrário. Utilizam-se símbolos para chegar significados anteriormente desconhecidos. Eles podem tomar a forma de histórias (mitos) ou imagens, e a forma tradicional de os abordar é colocando a atenção indivisa sobre eles, atingindo assim novas camadas de significado.

Valores/Conduta: Aqui a linha entre a religião e a espiritualidade fica muito ténue. A diferença de base vem de que os valores são assumidos não porque um Deus assim o disse, mas porque sabemos que nos levam na direção de algo. Por exemplo, no Yoga os Yamas e Niyamas (o equivalente aos 10 mandamentos dessa tradições) são usados porque se assume ajudarem no trabalho de aquietar a mente. Na magia, há valores muito fortes a nível de ética porque sabemos que todo o mal que seja feito regressa a quem o pôs no mundo (porque é que acham que as bruxas no sentido pejorativo vivem sempre em cabanas miseráveis, são azedas e má companhia?)

Limpeza e proteção energética: Também se podia dizer harmonização. O objetivo é sempre criar harmonia com o divino, e repelir assim influências externas que nos impeçam de ir nesse caminho. Na magia há práticas como a esfera de proteção. No trabalho de conexão à natureza, sinto efeitos similares numa prática de gratidão que recebi, o Thanksgiving Adress. E há mantras e orações com exatamente o mesmo propósito e efeito.

Ritual:  O ritual tem um papel muito importante, criando espaços (em nosso redor, mas principalmente na nossa consciência) onde é mais fácil entrar em comunhão com o Divino.

Trabalho Energético: Pro fim, há frequentemente uma componente de trabalho energético, de amadurecimento do nosso corpo feito de energia vital. Por norma tem algo a ver com colocar símbolos específicos em certas partes do corpo. Das várias partes do trabalho, este é aquele com que mais facilmente se cometem erros com consequências sérias.

Como criar a tua própria prática?

Então, agora que já tens os elementos, vamos criar uma prática básica, certo?

Não, nada mais longe do que queremos.

Imagina, por um momento que estas coisas funcionam mesmo. Vais estar a trabalhar com energias intensas, divindades, símbolos que abrem portas a novas áreas da tua consciência, já para não falar de todas as coisas que não tens a noção de estarem a ser trabalhadas.

A não ser que percebas muito do assunto — e isto significa no mínimo dos mínimos um sistema vivido de uma ponta à outra — estar a inventar é boa forma de dar asneira.

No yoga avisam sempre sobre os problemas (incluindo morte) que podem surgir de uma prática de ativação da kundalini que não seja feita da forma devida. Nas artes marciais asiáticas (que trabalham muito à séria o corpo energético) avisam uma e outra vez para não misturar linhagens. Em ambos os casos estas advertências prendem-se única e exclusivamente com a vontade que os mestres têm de manter vivos os seus discípulos.

Uma boa metáfora é pensar na química. Se de repente tivesses acesso a um mega laboratório, cheio de coisas giras, pós coloridos e líquidos brilhantes para misturar, podias fácilmente fazer asneira. Um bom primeiro passo seria seguir um ou dois manuais com experiências, para que, quando já percebesses alguma coisa do assunto então aí sim, pudesses seguir pelos teus próprios meios.

Próximos passos

Mas para quê toda esta exposição então?

Há um propósito muito simples — para que possas olhar para a tua própria prática e perceber o quão completa ela está.

Esta lista não é exaustiva. Há tradições que trabalham com mais elementos, ou que não trabalham com todos. Mas assim tens uma ideia sobre as categorias em que se encaixam as coisas que aprendes como práticas do teu caminho.

Além disso, assim vais ser menos vítima do deslumbramento. Quando o professor do retiro de fim de semana a que vais te falar da verdadeira história da origem do universo, vais ser capaz de perceber que é só um conjunto de símbolos e usa-los para o que é suposto.

Vais saber que a mais recente via para realizar todo o teu potencial humano-divino, alcançar a vida eterna, acabar com o sofrimento e toda a lenga-lenga do costume não passa de mais um caminho de desenvolvimento espiritual. Feito mais ou menos dos mesmos blocos de todos os outros e que, se tiver alguma qualidade (uma boa métrica é há quantos séculos existe), vai sem dúvida levar-te a sítios interessantes.

E sem estar deslumbrado, não te vais deixar convencer que aquele é o único caminho, superior a todos os outros. E se assim for, é mais fácil manter o sentido crítico a funcionar, escolher um caminho que realmente se adeque a ti e não desperdiçar tempo em caças de gambuzinos vendidas com promessas brilhantes.

E é destes caminhos que vamos falar no próximo post. Se tudo correr bem, vais ficar a saber melhor como escolher o teu. É esse o próximo passo.

8 Perguntas para encontrares o teu sentido de vida.

As 8 perguntas são um técnica inspirada em sabedoria nativa, criado com influências de anciãos de tribos da América do Norte, de África e do Havai. Elas são uma forma de encontrar resposta para uma das perguntas que acompanha a humanidade desde o início da sua viagem: o porquê de estarmos aqui.

É um processo tradicionalmente feito no Inverno, na altura em que as noites longas convidam ao recolhimento e à reflexão. Mas não nos alonguemos mais. Aqui está uma versão muito resumida as 8 perguntas:

1. O que te faz sentir conectado?

No mundo ocidental, muitas vezes o sucesso é visto como uma escalada, como tornar-se o número um, colocar-se acima de todos os outros, estar orgulhosamente sozinho no topo da montanha. Nada está mais longe da verdade para o ponto de vista nativo. Nestas culturas, não queremos estar acima, queremos sim estar em conexão de forma profunda e verdadeira, com o nosso interior, com o outro e com a Natureza.

Assim, a primeira questão é exatamente, em que situações, com que pessoas, em que locais nos sentimos conectados. Essa é a nossa bússula para perceber se realmente estamos ou não no caminho certo. Nesta visão, o mundo não precisa de heróis, que ganhem contra tudo e contra todos. Precisa sim do nosso génio interno, dos dons únicos que temos dentro de nós, que ao florescer nutrem tanto aqueles que nos rodeiam, como a nós mesmos.

2. Quais os obstáculos à conexão

Por vezes há experiências, momentos, em que algo acontece, e uma experiência profundamente conectiva se esfuma em nada. Podem ser as palavras de um professor, que nos convence a nunca mais desenhar. Pode ter sido um salto de fé que correu mal. Pode ser uma série de outras coisas, de pequenos traumas que nos impedem de conectar.

É muito importante que estes sejam reconhecidos. Esses obstáculos interferem com a nossa bússula interna, confundem-nos, não nos deixam ver qual é o nosso caminho. Neste ponto, interessa apenas ter consciência deles. Isto basta para nos permitir olhar para quais os caminhos que não nos estamos a deixar ir, e para os olhar com novos olhos.

3. Que padrões, sincronicidades e a ajuda da natureza encontras na tua vida?

Num mundo onde em vez de competirmos estamos em conexão uns com os outros, o próprio universo, a própria natureza é nossa aliada. Podemos ouvir a sua voz ao olhar para os padrões e sincronicidades que surgem no nosso caminho.

Isto leva-nos ao reconhecimento que não estamos sozinhos, que o próprio mundo fala conosco, nos mostra qual o caminho por onde somos convidados a seguir.

4. Quais são os teus dons?

Os povos nativos têm a visão de que, para um dom florescer, tem que ser reconhecido por quem rodeia a pessoa. Na nossa sociedade isto é particularmente difícil. Só o que é obtido por esforço tem valor, o foco na escola é colocado nas áreas onde temos mais dificuldade e não nas onde brilhamos. Isto significa que os nossos dons, as coisas que nos vêm naturalmente sõa muitas vezes descontados, ou completamente ignorados.

Fazer um trabalho consciente de reconhecer os nossos dons e de os ter reconhecidos por que nos rodeia, pode mudar completamente a forma como olhamos para a vida. Afinal, os nossos dons foram as primeiras ferramentas que nos foram dadas para levar a cabo a nossa missão, e olhando para a ferramenta podemos ter uma ideia mais clara da tarefa qe nos aguarda.

5. Identifica os miradouros da tua vida

Este é um conceito único deste trabalho, nunca o vi a ser expresso em mais nenhum lugar. Os miradouros de vida são momentos em que parece que tudo faz sentido, em que nos elevamos acima da experiência do nosso dia-a-dia, e conseguimos ver mais longe. Percebemos a forma como o caminho que fizemos nos levou até ali, e percebemos também como ele pode continuar.

Pode parecer que não tens nenhum na tua vada, mas se parares para ires em busca deles nas tuas memórias, sem dúvida que os vais encontrar. Ao fazer isto, vais ficar com uma ideia mais clara de quando realmente te sentiste com os pés firmemente no teu caminho.

6. O que tens que perdoar?

O perdão prende-se com a segunda pergunta, com os obstáculos à conexão. A verdade é que, enquanto não perdoamos, somos definidos por aquilo que nos fizeram. Perdoar é largar, é seguir em frente. Parte da aceitação de que algo aconteceu, e da renuncia a carregar esse peso, a deixar que isso nos continue a moldar.

Enquanto não perdoamos, continuamos à espera de um pedido de desculpas, de uma restituição, de que nos digam que nós é que tivémos razão. Ficamos com uma parte da nossa energia agarrada ao passado, e incapaz de estar livre para ser empregue no presente.

7. Qual o teu cenário ideal

Com uma visão clara daquilo que nos conecta, das mensagens da natureza, dos dons que trouuxémos ao mundo e dos momentos em que nos sentimos realmente no caminho. Com uma visão clara daquilo que nos bloqueia, e tendo feito um trabalho de perdão em relação a isso e tudo mais que necessitamos de largar, então estamos prontos para cirar o nosso cenário ideal.

Já não somos movidos por uma fantasia externa de sucesso, por algo que nos disseram que era o certo, o seguro, mas sim por aquilo que realmente faz sentido para nós. Conseguimos criar um cenário ideal para a nossa vida, dar uma forma ao nosso futuro que realmente faz sentido tendo em conta quem somos.

8. Como vais levar à prática

E no último passo, chega o momento de pôr em prática. De perceber como tornar esse cenário numa realidade. No último passo olhamos para formas de trazer ao mundo essa nossa visão, em também para a forma como todas as nossas visões encaixam numa visão maior para o mundo.

São estas as oito perguntas. Há uma versão completa delas online, en ingês aqui.

O guião, traduzido por mim com autorização dos autores originais pode ser consultado aqui

Rotinas de conexão 0/13

Esta série é especialmente dedicada a Hesus, senhor dos carvalhos e da sabedoria que vem deles. Que ele possa abençoar aqueles que procuram regressar ao mundo natural. Peço também a benção de Niwalen para este início.

Para este post tenho também que deixar um agradecimento muito especial a Jon Young e à sua linhagem de mentores. Foi através dele que chegou até mim aquilo que vou partilhar convosco.

“Sinto que não sou daqui. Às vezes olho para o céu e peço que me levem de volta para casa”

Foi no final de uma vivência de dança Xamânica que ouvi alguém dizer isto. Era um sentimento que me era familiar, embora já não vivesse comigo. Quando era bem mais novo também sentia que não pertencia. Que estava desenquadrado no mundo.

Agora estou muito melhor. Continuo desenquadrado da sociedade, mas tendo em conta o estado, vejo isso como um sinal de saúde. Em relação ao mundo, nunca me senti tão próximo dele.

E as rotinas de conexão foram fundamentais para essa viagem.

É uma questão de conexão

A diferença entre fazer e não fazer parte do mundo é uma questão de conexão. Se estamos ligados, sentimos que fazemos parte. Se não estamos, sentimo-nos desenquadrados. Vivemos a mesma festa de forma diferente se formos com um grupo de amigos, ou se não conhecermos ninguém. A diferença é a conexão.

Quando vivemos toda a vida em jaulas de cimento, em que a natureza é uma coisa lá fora onde vamos fazer visitas pontuais, é natural que não nos sintamos ligados a ela.

E sem estar ligados ao mundo vivo de onde nascemos, ficamos de certo modo órfãos. Sem estar ligados ao mundo, é fácil perder a ligação com o nosso interior e com aqueles que nos rodeiam.

No entanto, esta questão da conexão é um problema quase exclusivo das culturas ocidentais e ocidentalizadas. Não há nenhum população nativa nenhuma que sofra desta maneira.

Como é que certas culturas mantêm viva a conexão à natureza de geração em geração? Porque é que a nossa não o faz?

Esta foi a pergunta da qual nasceram as rotinas de conexão de que vos vou falar.

Em poucas palavras, havia um rapaz nos Estados Unidos chamado Jon Young. Ele tinha tido um mentor chamado Tom Brown, que por sua vez tinha tido como mentor um ancião Indio.

E Jon reparou que tinha uma visão do mundo, da natureza muito diferente das pessoas que o rodeavam. Isso acabou por o levar a estudar antropologia, para tentar perceber o que é que estava a faltar na nossa civilização.

Nessa pesquisa, ele foi em busca de comportamentos de conexão que aparecessem em tribos de pelo menos três continentes. A ideia era que se um comportamento só resistiria a milénios de migração humana se fosse realmente importante.

Dessa investigação, e do trabalho prático com esses comportamentos que identificou, nasceram as rotinas de conexão.

Rotinas enquanto caminho de volta a casa

É destas rotinas que vou falar. Porque elas são um caminho de volta para o mundo. Um caminho familiar, que os teus ancestrais desde o início do tempo que percorrem, e que também está aberto para ti.

Estas rotinas devem tornar-se parte da tua vida. Tal como lavar os dentes. Tal como tomar banho. Para a tribo mais antiga que há registo — os Bushman do deserto Kalahari — a conexão é como uma corda que nos liga ao mundo, aos pássaros, às arvores, aos outros. E essa corda começa como um fio pequenino e à medida que se partilham experiências vai-se tornando cada vez mais forte.

Estas rotinas são uma forma de criar e engrossar essa corda de ligação.

As 13 rotinas

Apesar de haver mais, são 13 as rotinas de conexão principais. É sobre elas que os próximos artigos da série se vão focar:

  • Poisar – Escolher um sítio, e visita-lo todos os dias, a diferentes horas, tomando atenção.
  • Meditação nos sentidos – Práticas que nos acordem e nos levem para uma vivência profunda dos sentidos
  • História do dia – Falar/escrever sobre a vivência no Poiso, ou outra vivências na natureza
  • Seguir pistas – Questionar sobre o que estamos a absorver pelos sentidos, e seguir pegadas e outras pistas de animais
  • Movimento animal – Aprender com os animais através do movimento
  • Vaguear – Andar sem destino nem tempo
  • Mapear – Desenhar zonas por onde andamos
  • Explorar guias de campo – Ou falar com gente com experiência na natureza, o objetivo é aprender e ser capaz de reconhecer o que se vê lá fora
  • Tomar notas – Escrever sobre as vivências na natureza e sobre o que descobrimos nos guias de campo. 
  • Sobrevivência/Primitivismo – Sobreviver no mundo natural só com o que se consegue ir buscar a ele
  • Imaginar com os olhos da mente – Imaginar de forma vívida as coisas que encontramos no mundo
  • Linguagem dos pássaros – Aprender a forma como os pássaros reagem ao ambiente
  • Agradecer – Criar espaço para a gratidão na nossa vida.

Elas vêm muito bem explicadas no livro “Coyote’s Guide to Connecting with Nature”, que recomendo a quem quiser aprofundar este campo.

Há também o Kamana Naturalist Training. Um programa com quatro níveis. O primeiro nível demora 15 dias a fazer e é absolutamente mágico.

Começando no Poiso, nas próximas semanas vamos aprender sobre estas rotinas, e sobre formas de as viver. Todas as 6ª sairá uma nova. Até lá!

Ecstatic Dance

Ritual, Música e Dança.

Um encontro contigo através do som

Deixa que a música te leve.

No Ecstatic Dance não há limites, não há certo nem errado. Vais ao encontro do que há em ti, movido só pela música. Nas nossas sessões, à força da música juntamos uma vivência Ritual, para tornar a tua experiência mais direcionada e intensa.

Podes contar com:

  • Ritual de purificação e colocação de intenções
  • 1:30 a 2h de música e dança
  • Acolhimento e integração no final da vivência
  • 0 alcool, 0 drogas

Esta vivência é perfeita para ti se:

  • Tens um corpo que se quer mexer!
  • Precisas de te libertar

Próximas Sessões:

Data: 15 Outubro
Hora: 16:00
Local: Quinta Terapeutica Fonte Quente
Retribuição: Flexível entre os 20 e os 40

Material Necessário: Corpo. Água. Roupa confortável, e agasalhos. Venda opcional

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Encontra o teu caminho de Vida

E se pudesses dar sentido à vida?

E se pudesses calar a voz que te diz que estás no caminho errado? Que diz que a vida não faz sentido? Que te prende à cama porque os dias são todos iguais?

É essa a minha proposta para ti. Conduzir-te por um processo que te vai levar na direção de quem tu realmente és, e daquilo que cá vieste fazer.

Este processo nasce da sabedoria nativa. A sua base é um conjunto de 8 perguntas que te vão levar a um muito maior conhecimento daquilo que realmente te faz vibrar e que te vão permitir criar uma visão de uma vida vivida nesses moldes. Atreves-te a descobrir?

O que é o método das 8 perguntas?

Este método foi desenvolvido por Jon Young, com base nos processos que povos indígenas da América do Norte, África e Havai usam para dar sentido e orientação à sua vida. No blog tens uma pequena exploração sobre estas perguntas aqui e há uma tradução do processo completo que o Jon Young disponibiliza aqui.

No curso, estas 8 perguntas são a base, mas vamos para lá delas. Fui buscar ferramentas à psicologia, coaching e Yoga para tornar este processo mais profundo.

Ele está estruturado para ser vivido ao longo de 9 semanas, para te dar tempo de integrar e aprofundar cada um dos passos, de modo a que as repostas que tens tenham realmente impacto na tua vida.

O teu caminho de vida nunca termina.

O inverno, com as suas noites longas, com o frio lá fora, pede-nos para virar-mos para dentro, para refletir sobre o ano que passou, e escutar a nossa voz interior. É por isso que oferecemos este curso nesta altura do ano. Mas, antes de te inscreveres, tenho que te avisar. Descobrir um caminho é o primeiro passo. Depois disso é preciso percorre-lo.

O que este processo te vai dar é uma direção clara para seguires. É uma nova abordagem à tua vida, um compreensão mais profunda do que realmente é importante para ti.

Mas vai ser necessário que coloques as aprendizagens na prática. Isto é assim porque ao viver vais sendo transformado pelas tuas experiências. O caminho que vês agora só se mostra até à próxima curva e só caminhando é que descobres o que está para lá dela.

Em cada sessão vamos:

  • Trabalhar uma das 8 Perguntas.
  • Explorar formas de te reconectares ao teu corpo e à tua vontade.
  • Tomar partido do apoio do grupo para ir mais longe.
  • Ter desafios para fazer durante a semana

Este curso é perfeito para ti se:

  • Queres conhecer mais sobre ti
  • Queres descobrir mais sobre o teu caminho de vida
  • Estás descontente com o teu caminho de vida atual

Logística

Data: Todos os sábados, de 21 de Out. a 9 de Dezembro
Hora:

  • Versão Online: 20:00 às 22:00
  • Versão Presencial: 10:00 – 12:00

Local: Espaço Confluência, Estação, Leiria
Retribuição: Flexível, entre os 90 e os 180€

Material Necessário: Caneta e Caderno

Inscrições

Podes fazer a inscrição ou tirar as tuas dúvidas por mensagem para o 968 629 503, ou por e-mail para geral@josegabriel.pt.

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