Sobre o Amor

Escuro. Frio lá fora. Uma gruta escondida, e uma enorme ursa parda. Enorme também porque está grávida. É inverno, e no culminar da estação fria, ela acorda por momentos do seu torpor e dá à luz. A cria nasce, pequena e sem pelo

Estamos no pico do inverno. O ano passou à pouco, há neve lá fora e a noite domina o dia. Os ribeiros estão gelados, as plantas adormecidas, toda a comida escondida debaixo de um manto de neve.

A pequena trepa pela mãe acima, até um mamilo. Aninha-se e mama. Não vê, não ouve. O mundo dela é apenas o calor da mãe, a sensação do bater do seu coração, e o leite que a nutre. O mundo da mãe agora é mais brilhante. Por entre a escuridão da noite, há uma luzinha. Sente a cria aninhada junto ao seu coração, e os seus sonhos ganham novos tons de doçura.

Passam o tempo assim, aninhadas uma na outra, num mundo onde não há mais nada, mais ninguém. A cria cresce, ganha pelo, abrem-se os ouvidos e os olhos. A mãe emagrece. As suas reservas, a vida que guardou tem que ser suficiente para alimentar também a vida que gerou.

E com o abrir das flores, entre Abril e Maio, elas saem da toca.

Para a mãe é o regressar a um mundo conhecido, mas com um olhar diferente. Tem agora algo de infinitamente precioso, uma parte de si a quem proteger e ensinar como viver nesse mundo. Para a cria é um mundo novo. Do útero passou à toca e ao peito que a nutria. Da toca nasce para o mundo e ao amparo da mãe natureza.

A sua própria mãe agora está diferente. Já não passa os dias parada, agarrada a ela. Precisa que a cria aprenda como estar no mundo. Ao mesmo tempo que a empurra para brincar e explorar, chama-a ciosa, ao menor som, ao menor sinal de que algo se passa. Há uma leve tensão que aflora e se desvanece, seguindo os ritmos do sítio onde estão.

E um dia, a cria tem um encontro diferente dos outros. Há uma pegada grande no chão. Ela aproxima-se e cheira, curiosa, soltando alguns latidos de excitação. A mãe, que se tinha afastado um pouco, ouve-a. Sabe que ela se distrai quando a curiosidade fala mais alto e decide voltar para ao pé dela.

E, com o nariz bem junto da terra, ela não ouve o som suave de patas a tocar o chão. Não vê o vulto que se aproxima. Que observa esta pequena cria, sozinha. A fome do puma fala mais alto que a cautela e ele sai da penumbra das árvores. Carrega em direção a ela.

Do outro lado do caminho, a mãe acaba de atravessar um arbusto, e vê. A cria distraída no meio do caminho, e o enorme leão da montanha a correr na direção dela. O coração acelera, e os músculos explodem em força. Ruge e quase voa em direção à cria. Mas está longe. Mais longe que o puma.

A cria assusta-se com o rugir da mãe e mexe-se, foge. O puma não quer perder a refeição. O inverno também foi rigoroso para ele. Chega ao pé da cria e tenta abocanha-la, mas a pequena consegue fugir!

A mãe chega. O puma hesita, a mãe não. Atira o corpo contra ele, sem querer saber dos dentes nem das garras afiadas que ele tem. Põem-se de pé, e dá dá-lhe uma patada. Com as garras apanha-lhe a cara e abre quatro lanhos. O puma foge, a mãe volta a rugir, mas não o persegue. Vira-se para a cria, lambe-a. A pequena treme, aninha-se. Passado algum tempo, ambas se acalmam.


O amor tem muitas expressões. Tem cores que vão para além do rosa e texturas que vão para além do algodão doce. Por vezes é duro, negro, tem garras e dentes. Por vezes passa por escolher o que é realmente importante para nós e não deixar que nada nem ninguém nos tire isso.

E sim, um compromisso desse tamanho assusta. Mas também nos dá forças.

Quando se diz que o planeta precisa de mais amor, este é um dos amores que se fala. Quando se pede para amar a terra, não é a ideia teórica dela, azul a flutuar no espaço, distante, abstrata. Pede-se o mesmo tipo de amor que o ser humano sempre teve. O amor pelo pequeno cantinho onde vives. Por aquilo que conheces, em que tocas e que te toca. Que é parte de ti. Se deixares, esse amor vai pedir as tuas garras e os teus dentes. Vai pedir que o mantenhas seguro e feliz. Vai dar-te a força que precisas para o proteger quando alguém o quiser levar.

Não dá para salvar o planeta, a terra. É demasiado grande. Demasiado abstrato, demasiado desesperante. Mas podes cuidar do pedacinho onde estás. E, se vires bem as coisas, a terra é toda feita de pedacinhos.

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