Os valores estão bem e recomendam-se.

A crise dos valores é uma invenção

Um dos lugares comuns de hoje em dia é a crise dos valores. Ouve-se dizer que hoje em dia as pessoas são dominadas pela ganância, pelo interesse próprio, e já não há pessoas com valores como antigamente.

Obviamente, essas pessoas com valores como antigamente perdem-se na bruma dos tempos. Basta olhar para a geração que se queixa mais vocalmente da falta de valores. O estado em que estão a deixar o mundo para os seus filhos fala por si só. Claramente, esses queixosos estão a falar da geração anterior enquanto gente com valores.

E, olhando para a geração anterior, a vida deles também não era fácil. Havia um maior sentimento de comunidade, e mais inter-dependência. Mas viviam uma vida extremamente dura, havia fome generalizada e o álcool, segundo um dos meus amigos da aldeia, era a forma de manter o ânimo. Por isso, os valores dessa geração também não haviam de estar bem afinados.

Não estou a criticar só por criticar. Esta chamada de atenção serve apenas para mostrar que a suposta crise não é uma coisa nova, que esteja lá fora, nos outros. Não é um problema das gerações atuais, mas sim algo que tem sido carregado ao longo do tempo.

Os valores continuam a orientar a nossa vida

Para perceber melhor o que se está a passar, temos que definir o que são os valores. Vamos considerá-los como sendo as linhas orientadoras da vida. Eles definem o que é certo e errado, desejável e a evitar, e o que é que tem importância.

Se a paz for um dos meus valores, então a guerra está errada, a paz é desejável e sou capaz de me calar num conflito, para não perturbar essa paz.

Ao adoptar um conjunto de valores, espero que eles me levem até um certo tipo de vida e imagino como seria a sociedade se todos seguissem esses valores. Alguém que acredita na paz, acredita que se todos a tivessem enquanto valor, então o mundo seria bem mais pacífico.

É também importante ver que os valores são coisas vivas, que nascem do nosso contexto e são resultado daquilo que é valorizado nesse contexto. Mesmo que haja um conjunto de valores que sai da boca para fora (podemos chamar a estes valores explícitos), se na prática os usados forem diferentes, os que são adoptados são os que se aplicam na prática (podemos chamar-lhes valores implícitos).

Eles são aprendidos desde a infância

Esta aprendizagem sobre os valores é feita desde pequeninos: a criança na escola aprende a partilhar e a aceitar os amiguinhos de cor diferente. Mas também aprende que o que importa é tirar a melhor nota e que para isso até pode copiar se não for apanhada. Esta segunda aprendizagem não é porque alguém lhe diz que é assim. É só porque esse é o comportamento recompensado pelo sistema em que está.

Antigamente, talvez tivesse mais peso a retidão e o cumprir com a palavra dada. Mas para esse tipo de valores são necessárias relações de proximidade, conhecer a pessoa ao longo de anos. É necessário valorizar essa forma de fazer as coisas. Na nossa sociedade, de relações de curta duração e profundidade (desde o professor que só fica um ano, aos políticos que só ficam quatro), onde o interesse está todo nos fins e quase nada pelos meios, é natural que esses valores se percam.

Cada conjunto de valores leva a um tipo de vida

Portanto, os valores estão a funcionar tão bem quanto sempre o fizeram. Há um conjunto de valores partilhado pela sociedade — explicitamente o da liberdade, tolerância, independência, implicitamente a competição, o crescimento à custa do outro e mais alguns menos bonitos — que levam a um certo estilo de vida.

O que se passa é que esse estilo de vida não é bom para ninguém. Há uma crise imensa de saúde mental. Há uma crise imensa social. Há uma crise imensa a nível ambiental. Portanto, os valores que estamos a usar, aquilo que consideramos importante, claramente, não está alinhado com a realidade.

A ferramenta Valores está a funcionar, mas não está a ser aplicada da forma certa.

O que fazer então?

Como encontrar e escolher os valores que nos levem para uma vida melhor?

A resposta típica é que basta pensar no assunto, como os filósofos gregos ou os cientistas modernos. Outra resposta típica é que basta receber uma revelação divina, como no Cristianismo ou qualquer outra religião. Depois de encontrados assim os melhores valores, basta dizer a toda a gente que esses são os valores bons e problema resolvido.

Esta abordagem tem bem mais do que 2 milénios de provas dadas em como NÃO FUNCIONA! As cidades gregas? Cresceram graças ao trabalho escravo e estavam recorrentemente em guerra. O cristianismo? Desde as cruzadas aos escândalos do momento, o sistema de valores deles também está a dar buraco.

E podemos pôr a informação que quisermos a sustentar um conjunto de valores. Toda a gente sabe que o aquecimento global tem causas humanas e que a continuar assim vamos todos falecer. Toda a gente sabe que temos de ser sustentáveis, e consumidores conscientes. Mas ainda comemos manga que veio a voar de avião do outro lado do atlântico e secamos o Alentejo para podermos exportar mirtilos.

Então, esta ideia de que vamos dizer às pessoas quais são os valores certos, e elas magicamente os vão adoptar é falsa. E podemos usar sonhos de paz no mundo, ou ameaças da extinção humana e do inferno, mas por muito que preguemos, não funciona.

Temos que nos aliar à nossa forma natural de aprender

E sabes porque é que essas ameaças e sonhos não funcionam ? Tem a ver com a forma como aprendemos.

Normalmente, quando vemos alguém a fazer alguma coisa, somos capazes de fazer igual, ou parecido. É por isso que aprendemos melhor quando nos mostram como fazer algo do que quando nos explicam. E que aprendemos mais com o que vemos, do que com o que ouvimos.

Qualquer educador de crianças sabe isso. Sabe que ensina principalmente exemplo e não pelas palavras. E isto aplica-se em todas as idades. O que interessa é o que as coisas são, e isso passa-se pelo exemplo, e não pela descrição das coisas.

Outro exemplo? Ouvimos todos que temos que ser mais sustentáveis. E sabemos que a moda descartável tem imensos problemas: desde a desertificação provocada pela produção de fibras, passando pela poluição no tingimento, ao trabalho escravo nas fábricas. Mas se eu escolher continuar a usar uma camisola com buracos ou remendada, então passo a ser mal visto. Logo o que interessa não é o que se diz (a sustentabilidade), mas sim o que se valoriza na realidade (andar bem vestido).

Isto já era conhecido dos antigos. Como mostram no ditado, “Faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. A tendência é para seguir os comportamentos e não os idealismos.

Mas assim sendo, como fazer para adoptar o conjunto de valores certo?

Para isto, há duas vias: experiência direta, ou imersão num contexto certo.

A via da experiência direta é a que dá mais trabalho, e tem os resultados mais incertos. Ela é feita com base na consciência. São 4 passos simples:

  1. Percebemos quais os valores que estão a guiar a nossa vida. Aqui temos o cuidado de olhar para as nossas ações e não para as palavras que nos saem da boca. Como vimos antes, é fácil dizer uma coisa e fazer outra. E quando isso acontece, acabamos por nos confundir a nós mesmos sobre quais os nossos valores.
  2. Vemos para onde esses valores nos estão a levar, tanto a nível interno como externo. Em última análise, a nossa qualidade de vida prende-se mais com a nossa vivência do que com as nossas conquistas.
  3. Alterar os necessários. Se virmos que não estamos satisfeitos com a nossa vida, então podemos mudar. E para este passo, os tais valores clássicos ou religiosos são uma boa inspiração.
  4. Voltar ao passo 2, para perceber se os valores adoptados estão, ou não, a dar o resultado certo.

Esta é uma das vias. E até funciona. No entanto, pede bastante esforço, e é comum que a malta sem situações de aperto regrida para os valores que aprendeu e internalizou, largando os que adoptou de forma consciente.

A segunda forma é por imersão no contexto certo.

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

Esta é a forma mais fácil, aquela onde naturalmente aprendemos e internalizamos. Aquela em que o processo realmente vai fundo, bem para além dos sítios onde as palavras chegam.

E há três sítios onde encontramos estes contextos:

  • Pessoas exemplares
  • Culturas saudáveis
  • O meio natural

O primeiro é o mais comum. Há gente que conhecemos, que tem um sistema de valores que nos inspira. Podemos aprender com eles, deixar que o seu exemplo nos guie. Nem sempre é fácil, porque é um indivíduo numa maré, mas estas pessoas mostram-nos que é possível. A diferença entre estar com alguém assim, e ler sobre estes valores é que neste caso, o exemplo está vivo, e isso conta muito.

O segundo é difícil. Eu tive apenas uma experiência deste género — a comunidade de Taizé — e mesmo nesta, apesar de ter ido várias vezes, estive tão pouco tempo que podia ter sido apenas o estar em fase de Lua de Mel. Há pequenas comunidades interessantes, com códigos de conduta e formas de estar que realmente nos podem dar um exemplo e ajudar a criar em nós esta forma de estar, com os valores certos.

A terceira é a mais fácil e a que funciona melhor. Independente do nosso juízo sobre o meio natural, a verdade é que a Natureza funciona. O conjunto de regras pela qual se rege leva a uma maior abundância de vida e de recursos para todos, assim como uma vida melhor para a geração seguinte. Aquilo que depois da idade do gelo era rocha nua foi colonizado por líquenes, que abriu o caminho para musgos, e por aí em diante até às florestas e pradarias, onde habita uma diversidade imensa de plantas e animais.

A Natureza tem a resposta

Embora a Natureza dos dias de hoje esteja bastante degradada, as regras que a gerem são exatamente as mesmas que o faziam nos seus períodos de maior exuberância.

No entanto, o exemplo da natureza tem um senão, que é ao mesmo tempo a sua maior força. A natureza não usa palavras. Não doutrina, não ensina. Não tem uma receita, e a única regra parece ser que há exceções a todas as regras. No entanto, no contacto com ela temos uma experiência direta daquilo que funciona.

E aqui há mais um ponto chave: nós fazemos parte da natureza. Quer queiramos quer não, as suas regras são também as nossas. Não são as construções humanas, quer mundanas, quer do espírito que têm os valores que nos podem orientar para uma vida plena, em equilíbrio com o mundo. Esta resposta só pode ser dada pelo contacto direto com o meio natural.

A suposta crise de valores que vivemos não passa do resultado de sermos criados num contexto extremamente artificial. Num contexto onde os valores primários são antagónicos à vida. E a solução passa por voltar à vida. Por voltar à Natureza.

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