Os 10 Valores do Yoga

Yoga é a cessação da identificação com os conteúdos da mente

Yoga citta vritta nirodah

Yoga Sutra de Patanjali, sutra 2

Como vimos num dos textos anteriores, os valores guiam a vida na direção de um certo tipo de experiência. Nas tradições de desenvolvimento pessoal isto é plenamente assumido, os valores não são adotados por mandamento divino, mas sim porque queremos que a nossa vida vá numa certa direção. No caso do Yoga, essa direção é perceber quem realmente somos. Deixar de confundir as nossas ações e os nossos pensamentos com a nossa essência e realizar aquilo que de mais profundo, mais perene que há em nós. 

Os valores de que vamos falar  aparecem pela primeira vez estruturados num texto chamado Yoga Sutra (YS), um manual de Yoga escrito por Patanjali à cerca de 2.000 anos. Ele divide os valores entre Yamas (recomendações) e Niyamas (Abstenções), colocando cinco valores em cada uma destas categorias e explicando o que se obtém pela aplicação de cada um deles. No entanto, as raízes dos valores de que ele nos fala são mais antigas. Os Yamas, por exemplo, aparecem há 3000 anos, enquanto votos sagrados do Jainismo, uma outra tradição religiosa.

Além disso, é importante saberes que estes não são os únicos valores de que se fala no Yoga. Noutros textos da tradição há conjuntos de valores diferentes (por exemplo na Sandylia Upanishad há 10 Yamas). Saber que há estas variações e um pouco da história dos valores que te vou apresentar é um passo importante para lidares com os valores como sendo algo vivo, que dialoga com a tua vida e não um dogma.

Escolhemos os Yoga Sutras por serem possivelmente o texto com mais impacto na prática de Yoga moderno. Se quiseres ir ler diretamente à fonte, há várias traduções do original em sânscrito disponíveis online, ou em livro.

Para atingir o estado de Yoga (no YS, Yoga refere-se ao estado descrito logo no início deste artigo e não a uma prática), no qual deixamos de nos confundir com aquilo que fazemos e passamos a saber quem somos, o YS fala de oito membros, oito componentes da prática. Destes oito, os dois primeiros são os valores: os Yamas (recomendações) e Niyamas (abstenções).

Isto é fundamental perceber. No manual de Yoga escrito à 2.000 anos, por um dos maiores mestres da tradição, antes de qualquer prática, postura, respiração ou técnica de meditação, vêm os valores. Praticar Yoga sem adotar os seus valores é como tentar construir uma casa sem colocar fundações. O edifício criado até pode ser bonito, mas é frágil e de certeza que não vai chegar muito alto sem se desmoronar.

A função deste conjunto de valores é dar-te um código de conduta que possas usar em todos os momentos da tua vida para te orientares. Um chão firme sobre o qual te podes erguer para te manteres no caminho quando a vida te atirar com decisões difíceis, ou quando os teus próprios hábitos ou excessos te tentarem levar para um rumo errado. E isso vai levar-te a uma enorme paz para com a tua consciência e para com o mundo.

Adoptando um conjunto de valores, as tuas decisões, as tuas ações já não estão dependentes dos caprichos do momento, mas sim de um código de conduta que decidiste adoptar num momento de força. Ter este código como bússola leva a que estejas mais alinhado, a que seja a tua Vontade real a gerir as tuas decisões no mundo e não as influências daqueles que te rodeiam, ou as ilusões do momento. E isso permite que a tua energia se dirija para fins que vão para além de gerir as necessidades do dia a dia. Ao entrares em congruência com algo mais alto encontras paz e, nessa paz, fica mais fácil encontrar aqueles que és. 

 No entanto, se a adopção dos valores é uma decisão consciente, porque queres ir para determinado fim, então tens que manter um espírito crítico, e perceber se realmente eles te estão a levar na direção devida. Embora os valores sejam milenares, a interpretação dos mesmos vai evoluindo, vai-se adaptando ao momento, ao contexto histórico e geográfico.

Na Índia, Ahimsa, que significa Não-Violência e é o primeiro dos valores descritos no YS, muitas vezes toma a forma de uma dieta vegetariana, onde se evita magoar animais. Na Islândia, onde nada de vegetal cresce durante metade do ano, isto seria impossível. Lá a carne de ovelha é fundamental para a sobrevivência. Nesse local a aplicação deste principio teria mais a ver com dar uma boa vida aos animais, e garantir que a morte envolve o mínimo de sofrimento.

E no próprio contexto original, um mesmo valor pode ter diferentes expressões. Bramacharya (o quarto Yama), tanto significa Celibato para as correntes mais restritiva de Yoga, como Autocontrolo em muitas outras.

Isto deixa-nos numa posição delicada. Por um lado, se esvaziamos os valores de significado eles perdem o seu poder de direcionar da nossa vida. Por outro lado, se temos uma interpretação dogmática dos mesmos eles podem levar-nos para uma direção diferente da pretendida. A chave está na consciência. Tal como é ela que nos leva a adoptar um certo código de valores, é ela que nos vai permitir perceber se eles nos estão ou não a levar para o sítio certo. Eles são um pouco como um mapa. Este em particular tem sido usado com bons resultados há mais de 2.000 anos, mas isso não significa que podemos olhar para ele e ficar cegos ao sítio onde realmente estamos.

Agora que já tens o enquadramento necessário sobre o propósito, a história e a atitude adequada para lidar com os valores na tradição do Yoga, está na altura de te dar uma visão geral sobre estes. Abaixo tens a lista de valores conforme aparecem no Yoga Sutra. Para cada um deles tens o nome em Sânscrito, a língua sagrada do Yoga, e uma tradução para o Português.

Yamas: Recomendações

Ahimsa: Não Violência

Satya: Verdade

Asteya: Honestidade

Bramacharya: Autocontrolo

Aparigraha: Não-possessividade

Niyamas: Abstenções

Sauchan: pureza

Santosha: contentamento

Tapas: disciplina

Svadhyaya: auto-estudo

Ishvara Pranidhana: Entrega a Ishvara

Nas próximas semanas vamos aprofundar e discutir cada um destes valores. Até lá, tenho dois exercícios práticos para ti:

Pergunta: Olhando para esta exposição breve dos Yamas e Nyamas, qual é aquele com que te identificas mais e menos? Porque te sentes dessa maneira? 

Desafio: A história dos teus valores

Olha para os três valores que escolheste no último artigo, e escolhe um deles. Vais descobrir a sua história. Quando é que os adotaste? Porque? Conheces alguém que também os tenha? Qual o tipo de vida que estás a construir com eles? 

Escreve uma reflexão com base nas perguntas anteriores e, se te quiseres conhecer melhor, investiga um pouco sobre ele também. De onde veio? Quando é que ele passou a ser importante na sociedade?

Outros artigos nesta série:

  • Os valores estão bem e recomendam-se.
  • Os 10 Valores do Yoga
  • Como são vividos os valores no Yoga?

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