No outro dia, cometi o erro de ir espreitar umas páginas da moda da espiritualidade no Instagram. E confesso que enjoei quase instantaneamente. Lá vive-se num mundo cintilante cheio de “Se sentes é porque está certo”, “Tu crias a tua própria realidade” “Tens que aceitar”. Nesse mundo, todos somos criança mimadas, a quem tudo é devido, o universo é o nosso sugar-daddy e, apesar de termos livre arbítrio, a ideia é ficarmos sempre passivos, na abençoada aceitação.
E depois é ver o que acontece à malta que está no início do caminho, que está verdadeiramente na busca. Vêm de olhos brilhantes, armados com a ingenuidade de quem chega a um mundo novo e com a esperança de uma vida melhor. E dão com uma câmara de eco, em que ouvem toda a gente a dizer a mesma coisa. E bom, se toda a gente diz deve ser verdade, não é? E ficam a acreditar que os lugares comuns e os clichés são a mais profunda das Verdades, quando de Verdade têm quanto muito um embrião e de Profundo quase nada.
Pronto, desabafo feito, vamos lá às coisas úteis. Senhoras e senhores, quero apresentar-vos:
As 2 maiores balelas da espiritualidade moderna:
Nº1 – Aceita, que isso é o teu Karma
De todas as lições que vieram do Oriente, esta é a mais mal compreendida. E a malta, em toda a sua sabedoria, aplica-a no seu formato distorcido a tudo e mais alguma coisa.
- Tens uma relação que não funciona? É o teu Karma ter esse parceiro.
- Um acidente de automóvel? Karma.
- Apanhaste uma virose? Mais Karma.
Dizem que tudo tudo acontece por uma razão, tudo faz parte do processo (o que está certo). Mas o que é que aconselham? Na maior parte dos casos dizem: senta, sê um bom menino e aceita que dói menos (o que está bem menos certo)
O que aconteceu foi que quando o Karma veio para cá, fundiu-se com outro conceito bem mais antigo nos nossos lados: o Deus Castiga. Essa maravilha da teologia popular que diz que Deus está à coca, à espera que te portes mal, para te pôr no teu devido lugar. Que Deus é vingativo e que assim que fraquejares, pumba, já foste. E pronto, como é vontade divina a única resposta possível é sentar, ser bom menino e aceitar que doi menos. Mas o Karma tem pouco a ver com isto.
O que a lei do Karma ensina é que todas as causas levam a consequências. Só isso. É suposto ser uma verdade que liberta, que te coloca como criador da tua própria vida. Não como vítima do teu passado ou das tuas circunstâncias, mas sim como criador das mesmas por cada ação que tomas.
Nós, Ocidentais, mesmo na antiguidade, já conhecíamos a lei do Karma (embora sem esse nome) pela via da Astrologia. Nela, uma das primeiras coisas que aprendes é que:
Os planetas dão-te as cartas, mas cabe-te a ti jogá-las.
Em relação ao Karma é a mesma coisa. Nada é “Karmico” na medida em que tenhas que sentar e ficar a sofrer por isso. O que tu tens é o resultado de uma ação passada. Logo, se não estás satisfeito, podes mudar as causas, que consequências diferentes, sem dúvida, seguirão. Basicamente, o oposto do aceita que dói menos.
Normalmente, a malta usa o “Isso é Karma” para justificar um acontecimento doloroso em que a pessoa não quer (ou não pode) fazer nada em relação a ele. E nesse caso, acreditar que foram forças mais fortes que se moveram e nos fizeram passar por aquilo é muito reconfortante. Por vezes, quando o que aconteceu foi tão traumático, ou tão impossível de compreender esta é a resposta adequada.
No entanto, em situações menores é também uma forma quase certa de não aprender nada com o que se passou e transformar uma experiência que podia ser rica, apesar de dolorosa, numa mão cheia de ar e queixumes.
A malta diz “Foi Karma” e deixa que o assunto fique encerrado. A atitude certa é o oposto. Se foi Karma, então qual foi a causa? O que é que eu fiz? Como é que esta situação me espelha? Porque é que este padrão cá está? E, mais do que tudo isso, Como posso fazer diferente, para não acontecer o mesmo da próxima vez?
Ah, e sobre a aceitação. Depois das causas serem colocadas em movimento realmente o melhor é aceitar as consequências. Isso está certo. Já diziam os antigos: Não vale a pena chorar sobre leite derramado.
Agora, não se pode é continuar a pôr a bilha do leite na borda da mesa. Aceitar não é o mesmo que ignorar a responsabilidade. Aceitar não significar ficar passivo.
O que o aceitar faz é permitir ter uma visão límpida sobre os acontecimentos. Quando aceito, já não ando à procura de culpados, ou a bradar aos céus que o que me fizeram foi uma injustiça. Quando aceito, torna-se possível ver as coisas como elas são e perceber quais as causas sobre as quais devo agir para que as coisas se tornem diferentes.
Nº2 – Basta sentir
Esta é a minha preferida. É um clichê tão frágil que basta olhar para ele a direito, que se desfaz em nada.
Amigos, se bastasse sentir não tinhas um cérebro. Nem um corpo. Eras só um pacotinho de emoções a flutuar por aí.
E se o teu sentir fosse sempre verdadeiro, então a publicidade, a propaganda e as mil técnicas de persuasão que elas usam não serviam para nada. E se fosse verdadeiro, esse sentir era sempre congruente e nunca estava em conflito interno.
Mas a verdade é que o teu sentir é fruto da tua experiência. Tanto dos teus traumas como dos momentos de prazer. Ele pode mudar e é constantemente influenciado por aquilo que vives e pela informação que tens.
É fácil perceber o porquê do “basta sentir” estar na moda. Estamos num paradigma cientifico-materialista, onde a mente é deusa e senhora do mundo, onde ser racional é a mais alta das virtudes. Para a maior parte de nós, as nossas emoções foram chutadas para canto, fomos obrigados a conformar-nos com um mundo onde não há espaço para elas. E o “basta sentir” é a reação reflexa, oposta a isso.
Mas, o contrário de uma má ideia é outra má ideia. E o basta Sentir é tão errado como o basta Pensar.
Enquanto ser humano és completo quando escutas cada uma das tuas partes. Não vais ser melhor porque amputas uma parte de ti. Tens que estar presente com o espírito, a mente, as emoções e o corpo. E saber qual o lugar certo para cada um deles, em cada momento.
Isso faz-se com presença, com consciência e com reflexão. Faz-se aplicando a lei do Karma, procurando as causas internas das consequências que vivemos. E dá trabalho. Não há soluções rápidas e milagrosas. Até porque, se é verdade que a maior parte de nós podia sentir bastante mais, também é verdade que podíamos pensar bastante mais, e bastante melhor.
E pronto, hoje ficamos por aqui (já corri o risco de mexer com sensibilidades suficientes
). Se houver mais algum clichê que sintas (ou penses, que eu não descrimino) que gostavas de ver explorado, comenta para aí, que estou numa de escrever mais uma destas.
Se quiseres saber mais sobre a espiritualidade, no meu site há uma série de posts, o B+A = BA da Espiritualidade, onde partilho a minha visão sobre as bases deste caminho.
Boa busca!