A nossa cultura, como todas as culturas, dedicou-se à busca pela vida eterna. E, como todas as culturas, falhámos. Mas não nos demos por vencidos.Como a morte não se vergou nem à higiene, nem à medicina, dedicámos enormes esforços a combater a própria ideia da morte. Ela foi empurrada para longe, com cosméticas, e medicamentos, e em último recurso lares onde se morre lentamente. Foi empurrada para sítios onde não nos incomode, onde não nos recorde da sua dolorosa existência. E isso foi um erro colossal.
A necessidade de limites.
Antes de falar da morte, temos que falar de limites.
Imagina que te dão uma folha branca, uma caneta e dizem-te: “desenha o que te apetecer” vai ser difícil não é? Vais demorar uns momentos a pensar, a deixar que a inspiração venha até ti. Mas se te disserem “desenha uma casa” é mais fácil, mas rápido. E se te disserem “desenha uma casa com uma porta, duas janelas e uma chaminé” mais simples ainda se tornam as coisas. Neste caso, os limites facilitam-nos a vida.
Olhando para limites de uma outra forma, podemos imaginar um pintainho dentro de um ovo. A casca do ovo é um limite que o separa do mundo lá fora. Que o mantém contido, mas também em segurança. Se abrirmos o ovo antes de tempo, o pintainho morre. Mas, se ele não conseguir quebrar a casca na altura devida, também é a morte que o espera. Aqui o limite é algo mais sério. Não só responsável pela sobrevivência, mas também pela morte se não for ultrapassado.
Os limites dão-nos estabilidade, segurança. Tornam a vida suficientemente simples para conseguirmos lidar com ela. No entanto, maior parte deles, cumprida a sua função deixam de dar estrutura e passam a sufocar-nos. Esses devem ser ultrapassados. Mas isto tem que acontecer no momento próprio, quando temos a maturidade e força necessária para lidar com um mundo em que eles estão ausentes. Se forem retirados demasiado cedo, criam apenas desorientação, confusão.
Olhando para a nossa vida, há dois limites inescapáveis: o primeiro é o nascimento. É tão importante que o celebramos todos os anos: convidamos os amigos, temos um bolo e velas, fazemos um festa. Recordamo-nos que passou mais um ano desde esse momento especial em que viemos ao mundo.
O segundo limite é a nossa morte. Mas esse foi tornado tabu e é suposto vivermos como se não existisse. Não se fala da morte à hora de almoço. Conversas sobre o fim da nossa própria vida são consideradas tétricas, e rapidamente somos enxotados para um outro assunto, mais leve, mais alegre. Toda a nossa cultura está estruturada para nos afastar da ideia da morte. Desde a cosmética para disfarçar as rugas, ao esconder os idosos em lares. A nossa cultura faz um enorme esforço para fingir que esse limite não existe. E de todos os limites, esse e o nascimento foram aqueles que não foi feito para ser ultrapassados. A sua presença é fundamental para que possamos viver a vida.
Temos necessidade de contraste
Sem este contraste vida/morte, a vida perde o sentido. No nosso mundo, as coisas existem enquanto pares de opostos. Frio e calor. Perto e Longe. Preto e Branco. Vida e Morte. Quando lidamos com uma ponta do espectro, lidamos também com a possibilidade do seu oposto. E como tal, é impossível livrarmo-nos de apenas um dos polos da coisa: não há um iman só com polo norte.
Para além disso, ao lidar-mos com o polo desagradável de uma coisa, damos mais valor ao outro polo. Quando está demasiado calor, só pensamos em como temos saudade do frio, e vice versa. Quando alguém que amamos está demasiado longe, só pensamos em estar próximos. Ter que lidar com um dos extremos leva-nos a valorizar muito mais o outro.
Sabemos isto a um nível intuitivo. No entanto, por algum motivo achamos que a forma certa de dar valor à vida é ignorando a existência da morte. Retirando-a da equação. Fazendo os possíveis para que ela desapareça.
Ao fazer isto, só desvalorizamos a vida. Por falta de contraste, ela torna-se algo sem valor. Passa a ser pano de fundo, e não algo central na nossa vida. Um bocadinho como quem tem ar condicionado deixa de dar valor e desliga-se da temperatura. Afinal, sabe e confia que ela vai estar sempre lá, confortável, imóvel. Mas uma visão da vida assim, como se fosse eterna rouba-a do seu valor.
Uma outra forma de olhar para isto é ver a criança mimada. Tem sessenta brinquedos no quarto, e não liga a nenhum deles. Não lhes dá valor. Mas todos sabemos, que basta irmos ao quarto dela e tirar um, que ela de repente esperneia e grita e já não o quer largar. Nós com a vida fazemos muitas vezes o mesmo. Por nos esquecermos da morte ficamos como a criança, mas sentados no chão, rodeados dos anos que passam, sem lhes ligar nenhuma. É preciso que venha alguém e nos lembre que eles se vão embora para lhes darmos o valor devido.
A necessidade da morte.
Porque, apesar de todos os nossos jogos mentais, a morte continua lá à nossa espera. À minha espera. À tua espera.
A tua morte está à tua espera. E, mais tarde ou mais cedo, vai-te agarrar (ai, coisa horrível! Consigo imaginar-te a pensar. Vai fundo a nossa programação cultural, não é? A vontade de ignorar a nossa mortalidade?).
E a vida vai-nos dando pistas, vai-nos recordando de que a possibilidade da nossa morte nos acompanha sempre.
A pista mais clara é a morte de alguém que nos é querido. De repente a vida ganha outro sabor, ganha outra importância.
Sim, o luto e o pesar vêm, e em certos momentos podem ser sufocante. Mas ao mesmo tempo, eles obrigam-nos a olhar para a nossa vida. Obrigam-nos a deixar cair as máscaras, a calar as mentiras que dizemos a nós mesmos e a ver as coisas como são. Porque de repente, sabemos que só temos uma vida. E que deixar para amanhã, fazer aquele favorzinho que vai contra quem somos, deixar a nossa vontade para trás, o preço de tudo isso de repente fica demasiado grande para ser pago. Quando o luto e o pesar nos atravessam, nos abrem à vida, somos obrigados a deixar cair as nossas máscaras.
Esta consciência da morte é como uma montanha a que subimos. Que nos permite elevar-nos acima do nosso dia-a-dia, da pequenez em que por vezes nos deixamos enredar e nos permite olhar realmente para a vida.
Além disso, a morte dá-nos força. Força para dizer não quando ele é necessário e força para dizer sim, mesmo quando assusta. Ela, paradoxalmente, obriga-nos a levar a vida muito mais a sério – conscientes que os dias que passamos cá têm um prazo. Mas também com muito mais leveza: sabemos que não saímos vivos dela e que na face dela, nada do que fazemos é assim tão importante.
Convite a visitar a tua morte.
Ganhar consciência da morte não tem que ser assim dramático, não é necessária uma morte na família, ou uma experiência de quase morte na nossa vida. Os romanos faziam-nos com uma inscrição que colocavam em todo o lado: Memento Mori, que significa Lembra-te da tua morte.
O convite que te faço é para o fazeres com base numa meditação. Basta leres, e imaginares, com tanto detalhe quanto puderes. Respira duas ou três vezes, e lê as instruções abaixo, criando imagens mentais vividas na tua mente:
À distância ouves um sino a tocar na igreja. Reconheces o som, está a chamar para um funeral.
Vais nessa direção. Aproximas-te. À porta da igreja, começas a reconhecer caras. Seja quem for que morreu é-te próximo, as caras são-te todas familiares.
Entras na igreja, e avanças pelo corredor central. O caixão está lá à frente, aberto, mas a esta distância não consegues ver o corpo. Nas filas da frente vês também pessoas que te são muito próximas, família e amigos. Estás preocupado. Mas quem será que está no caixão?
Aproximas-te mais, e ao olhar lá para dentro, vês a tua própria cara, tal e qual como está hoje. És tu, ali. O teu corpo, morto.
E três pessoas do banco da frente avançam. Repares que uma das pessoas é teu familiar, outra do teu círculo de amigos, e a terceira da tua comunidade, ou do teu trabalho. Uma de cada vez, elas falam sobre ti.
Exercício:
a) Escreve o que achas que cada um deles diz sobre ti
Noutro dia, volta a fazer o exercício, mas numa das variações
b) Escreve o que gostavas que cada um deles dissesse sobre ti
c) Imagina que a tua morte está bem distante no futuro. A tua cara no caixão está enrugada, passaram-se muitos e bons anos. O que é que dizem sobre ti agora, passado este tempo todo?
d) Compara as diferenças e similaridades entre as várias versões, e vê, o que é que isso te diz sobre a forma como estás a levar a tua vida.