Asato mā sadgamaya

Uma das funções dos mantras é preservar o conhecimento e passa-lo de geração em geração. Para isso, os sábios da antiguidade condensaram as suas lições em pequenos versos, incrivelmente profundos. Mas, se isto permitiu ao conhecimento sobreviver, ao mesmo tempo leva a que seja necessária uma reflexão cuidada para chegar à sabedoria que está presente no texto.

Para isso, devemos procurar entender o significado de cada verso por si só, assim como o que ele significa no seu contexto. É esta exploração, do significado profundo dos mantras que nos propomos a fazer neste e nos próximos artigos.

Vamos trabalhar com um mantra em específico, o Asato Ma. Hoje, vamos perceber o que é que o primeiro verso tem para nos ensinar.

oṁ asato mā sadgamaya |


tamaso mā jyotirgamaya |


mṛtyormā amṛtaṁ gamaya ||


oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ || hariḥ oṁ ||


śrī gurubhyo namaḥ || hariḥ oṁ ||

*

Que a confusão vá embora e venha o real.

Que as trevas se dissipem e a luz brilhe.

Que se vá a morte e venha a imortalidade.

Oṁ. paz, paz, paz.

Hariḥ Oṁ [a sabedoria leva embora (hari) o sofrimento].

Saudações aos mestres.

Ou

Leva-me da ignorância para o conhecimento

Leva-me da escuridão para a luz

Leva-me da morte para a imortalidade.

Oṁ. paz, paz, paz.

 Hariḥ Oṁ [a sabedoria leva embora (hari) o sofrimento].

Saudações aos mestres.

Asato mā sadgamaya

Vamos começar pelo mantra Asato Ma. Ele é um dos meus favoritos, porque nele está tudo o que precisas de saber sobre Yoga. É um tratado escrito em três versos.

O primeiro verso é asato mā sadgamaya, que significa “ Que a confusão vá embora e venha o real” ou “Leva-me da ignorância ao conhecimento.”

Esta viagem da ignorância ao conhecimento é o objetivo da prática do Yoga. E aqui temos a primeira armadilha do texto. Nos dias de hoje, quando falamos de conhecimento, quase sempre estamos a falar do conhecimento académico, científico. Do conhecimento que resulta da análise do mundo.

Mas o conhecimento de que fala o Mantra vai no sentido oposto. É o conhecimento do que há de mais íntimo dentro de nós. Do saber quem realmente somos.

Essa busca do saber quem realmente somos é uma das poucas constantes que vai aparecer nas várias escolas e linhagens de Yoga. Os detalhes variam: numas, tens que encontrar a divindade em ti, noutras basta recorda-la. Mas é constante que esse conhecimento de quem realmente és é o mais importante. A palavra mais recorrentemente usada para este encontro é autorrealização.

A confusão ignorância, neste caso é não saber quem é que sou. É confundir aquilo que faço, as personalidades que visto com quem realmente sou. É comum, e provavelmente vais-te identificar se disser que em casa és uma pessoa, no trabalho outra, e com os amigos ficas diferente daquilo que expressaste anteriormente. A pessoa que tu és hoje em dia, se comparares com eras à 20, 40 anos não tem nada a ver.

Não há nada de errado com isto. É suposto mudarmos de acordo com o meio, crescermos. É parte do que acontece naturalmente na interação entre o espírito e matéria. Mas, toda esta mudança superficial abre espaço para a pergunta. Quem sou eu realmente? Quem é este que passa por todas estas mudanças?

No segundo verso, o mantra traz-nos a resposta a essa pergunta.

Nota: A primeira tradução é da autoria de Pedro Kupfer, o meu professor. Podes aceder ao site dele aqui

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